Quem vai esperar por mim

16 10 2009

(continua)

…fala da mulher…

Agora que te deixei para trás penso, quem me vai esperar? Na estação de serviço ou noutro lado qualquer, quem é que vem a correr para mim sempre que peço, não importa a hora. Sei que não é bem assim mas não interessa, iludo-me. Quero ouvir de novo a tua voz e ligo-te, quando voltas cá? Ai sim, tanto tempo? E assim quem é que vai esperar por mim na estação de serviço? Ris, dizes ser a coisa mais bonita que ouviste nos últimos tempos, finjo acreditar, desligo o telefone e continuo, pela mesma estrada de sempre, desatenta aos outros carros, aos desvios, às saídas, conduzindo às cegas por um caminho que felizmente já faço de olhos fechados. Por vezes tenho vontade de seguir em frente, nesta curva, não, naquela ali mais à frente, um pequeno puxão no volante e já está, a esta velocidade de certeza que não resisto. Penso no meu filho, passo as mãos nos olhos e continuo, que ideia estúpida.

Sempre quis ser doutro lado, doutro lugar, nunca saí daqui, apesar de já ter vivido na outra margem, por pouco tempo, é certo. Nas férias sempre quis ir para longe, quase nunca fui, não importava onde, só longe, a uma praia que não fosse a do costume, a um jardim, à serra. Nunca fui. Sempre serei daqui e sempre quero ser doutro lugar. Não importa onde. Agora sou tua ou quero ser e isso é o mais longe e mais próximo que posso ser, onde posso ir e estar. Ser contigo é o que quero, uma utopia escrita num livro a vermelho, gritada por dentro da terra, como música, suavemente dentro do mar.Uma vermelhidão todos os dias, ao sul, lento e calmo, inquieto de amarelos e brancos como escrevia o Eugénio, o meu poeta do nocturno a duas vozes, o teu das palavras simples, das vírgulas , que amaste e odiaste e voltaste a amar. Um verso basta, é verdade, apenas um, um relâmpago em vez de mar. Sabemos isso e hoje o céu é violeta, roxo, confunde-se  com o mar nesta hora das fendas, confunde-se connosco. E eu que entro em todos os mares, não entro neste, antes fosse vermelho, não este violeta escuro, grosso debaixo das pedras, este não o conheço. É o tal sítio para lá da serra e estou aqui pela primeira vez, muito para lá do meio do caminho e tu não estás, esperas por mim noutro lado. Pelo menos penso ser este o sítio, só pode ser, uma casa térrea, com jardim, três degraus até à porta.

(continua)





Um dia ainda leio um livro seu

15 10 2009

Nunca gostei do Pedro Mexia nem da Inês Pedrosa, um desgosto visceral e estúpido, assumo. Ao Mexia li-lhe um livro de poemas e não gostei, li algumas criticas a livros e não gostei, algumas crónicas e não gostei. Da Inês apenas li algumas crónicas, em jornais e revistas, e não gostei. No domingo passado estiveram ambos no Câmara Clara e gostei deles. Falaram da Agustina, que também conheço sem nunca lhe ter lido nada, como se fala de um amigo, de um amante e quase tive vontade de lhe ler todos os livros. Não gosto, nem nunca gostei da escrita (ou dos livros) feita alarido, beberetes e festas e exposições. Hoje que a Agustina faz 87 anos ouvi na rádio o Mega Ferreira, a propósito de uma festa no CCB com leitura de excertos e baboseiras afins, dizer que ela era conhecida e “valiosa” pela intervenção cultural que fez, pelos cargos públicos que ocupou. Não é, vale pelos seus livros, pelas suas personagens, valemos todos e é isso que fica. Ainda que não lhe tenha lido nada, nunca.





Calças Vermelhas

12 10 2009

Depois dos dois posts anteriores em que quase só falo de homens e de coisas meio amaricadas, convém deixar aqui algo mais macho, não vá que me interpretem mal. Um poema, pode ser? Pelo menos é escrito por uma mulher, e cantado por outra:

calças vermelhas

amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei a chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros,
fechei em código toda a escrita.

amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agricola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei o livro na mesma página
descobrirei alguma pista.

ana paula inácio
musicado por a naifa





Ler

8 10 2009

Por estes dias comprei a revista Ler, edição de Outubro.  Sempre tive uma aversão visceral a esta publicação e ao seu editor, Francisco José (Bosta) Viegas. Não gostava do formato anterior, demasiado grande, folhas demasiado grossas, demasiado armada ao pingarelho-intelectualoide. Dava-me um sono tremendo. Depois saiu o Viegas, entrou uma menina loira de que não me lembro o nome, saiu e voltou o Viegas.  Mudou de formato e de autores. Está melhor. Mas traz o Bolano na capa (e antes o Sousa Tavares) o que me irrita solenemente. Eu até estava capaz de gostar do Bolano, a sério que estava, não fosse todo este estrilho à volta do raio do livro, dos beberetes com a Soraia Chaves na festa de lançamento… irra. Por coisas destas é que não gosto do Viegas, lembro-me de há uns valentes anos, quando tinha tempo para passear por livrarias, me cruzar quase sempre com um livrinho dele que estava em todo o lado. Um céu demasiado azul, ou algo parecido, se chamava o infame escrito. Estava mesmo em todo o lado, mal comparado é o equivalente actual aos livros do Sousa Tavares (ou do José Rodrigues dos Santos). Dava por mim a pensar como é que um céu pode ser demasiado azul, ou qualquer coisa mesmo, como é que qualquer coisa pode ser em demasia? Parvoíce minha com certeza.

Mas a Ler está melhor agora, e o que mais gostei, falta dizer, foi a entrevista ao Mia Couto (pelo Carlos Vaz Marques). Sei que não corro esse risco, os homens estão perdidos, mas se um dia quisesse um seria como ele, ou como o dave ou o joão.





Yes (I can’t)

4 10 2009

Deve ser falta de homem, ouço dizer hoje, aqui ao lado, no bar do refeitório do hospital. Sei o que isso é, nunca tive nenhum, o mais aproximado foi uma mão marota na perna, há uns anos atrás, num concerto dos Yes no Pavilhão Atlântico. Isso e uns beijos na face a dois ou três amigos. Nunca tive nenhum no sentido físico, sexual, da coisa. A ver bem também nunca tive nenhuma mulher, nem nunca tive filhos, que isto da pertença e da posse tem que se lhe diga, mas não é para aqui chamado, não hoje. Sempre associei esta frase da ‘falta de homem’ ao sexo. Como se ele resolvesse e fizesse esquecer os problemas, ainda que por instantes.
Esquecer até faz, mas penso para que outras coisas possa o homem fazer falta. Não sei. Nós homens não usamos a expressão ‘falta de mulher’ (ou de gaja), nunca ouvi, nem nada parecido.
Tento ver quem disse a frase e encontro duas mulheres de bata verde, auxiliares de acção médica, na casa dos 30 anos, talvez menos, ambas com as orelhas ocas de furos e pesadas de brincos dourados, pequenas argolas, piercings brilhantes, as unhas das mãos e pés pintadas de vermelho ocre, uma com os lábios cor de rosa outra vermelho vivo. Um ar suburbano refinado em anos de comboio da linha de sintra. No braço direito de uma consigo ver uma tatuagem com aspecto recente, logo acima do relógio com o logotipo da hello kity. Leio ‘Sofia’ desenho a letra cursiva de pontas retorcidas e ladeado de pequenas estrelas de cinco pontas.
Se depender de mim sofrem ambas de falta de homem por muito tempo.





Começar de novo

3 10 2009

Deixo ali ao lado os meus antigos blogs e começo de novo aqui.

Em cima dois projectos, um quase terminado e outro no início. Mais novidades à medida que forem avançando.