(continua)
…fala da mulher…
Agora que te deixei para trás penso, quem me vai esperar? Na estação de serviço ou noutro lado qualquer, quem é que vem a correr para mim sempre que peço, não importa a hora. Sei que não é bem assim mas não interessa, iludo-me. Quero ouvir de novo a tua voz e ligo-te, quando voltas cá? Ai sim, tanto tempo? E assim quem é que vai esperar por mim na estação de serviço? Ris, dizes ser a coisa mais bonita que ouviste nos últimos tempos, finjo acreditar, desligo o telefone e continuo, pela mesma estrada de sempre, desatenta aos outros carros, aos desvios, às saídas, conduzindo às cegas por um caminho que felizmente já faço de olhos fechados. Por vezes tenho vontade de seguir em frente, nesta curva, não, naquela ali mais à frente, um pequeno puxão no volante e já está, a esta velocidade de certeza que não resisto. Penso no meu filho, passo as mãos nos olhos e continuo, que ideia estúpida.
…
Sempre quis ser doutro lado, doutro lugar, nunca saí daqui, apesar de já ter vivido na outra margem, por pouco tempo, é certo. Nas férias sempre quis ir para longe, quase nunca fui, não importava onde, só longe, a uma praia que não fosse a do costume, a um jardim, à serra. Nunca fui. Sempre serei daqui e sempre quero ser doutro lugar. Não importa onde. Agora sou tua ou quero ser e isso é o mais longe e mais próximo que posso ser, onde posso ir e estar. Ser contigo é o que quero, uma utopia escrita num livro a vermelho, gritada por dentro da terra, como música, suavemente dentro do mar.Uma vermelhidão todos os dias, ao sul, lento e calmo, inquieto de amarelos e brancos como escrevia o Eugénio, o meu poeta do nocturno a duas vozes, o teu das palavras simples, das vírgulas , que amaste e odiaste e voltaste a amar. Um verso basta, é verdade, apenas um, um relâmpago em vez de mar. Sabemos isso e hoje o céu é violeta, roxo, confunde-se com o mar nesta hora das fendas, confunde-se connosco. E eu que entro em todos os mares, não entro neste, antes fosse vermelho, não este violeta escuro, grosso debaixo das pedras, este não o conheço. É o tal sítio para lá da serra e estou aqui pela primeira vez, muito para lá do meio do caminho e tu não estás, esperas por mim noutro lado. Pelo menos penso ser este o sítio, só pode ser, uma casa térrea, com jardim, três degraus até à porta.
(continua)